Tragédia no lar
(fragmento)
Castro Alves
(1847-1871)
Na Senzala, úmida, estreita,Brilha a chama da candeia,No sapé se esgueira o vento.E a luz da fogueira ateia.Junto ao fogo, uma africana,Sentada, o filho embalando,Vai lentamente cantandoUma tirana indolente,Repassada de aflição.E o menino ri contente...Mas treme e grita gelado,Se nas palhas do telhadoRuge o vento do sertão.Se o canto pára um momento,Chora a criança imprudente ...Mas continua a cantiga ...E ri sem ver o tormentoDaquele amargo cantar.Ai! triste, que enxugas rindoOs prantos que vão caindoDo fundo, materno olhar,E nas mãozinhas brilhantesAgitas como diamantesOs prantos do seu pensar ...E a voz como um soluço laceranteContinua a cantar:"Eu sou como a garça triste"Que mora à beira do rio,"As orvalhadas da noite"Me fazem tremer de frio."Me fazem tremer de frio"Como os juncos da lagoa;"Feliz da araponga errante"Que é livre, que livre voa."Que é livre, que livre voa"Para as bandas do seu ninho,"E nas braúnas à tarde"Canta longe do caminho."Canta longe do caminho."Por onde o vaqueiro trilha,"Se quer descansar as asas"Tem a palmeira, a baunilha."Tem a palmeira, a baunilha,"Tem o brejo, a lavadeira,"Tem as campinas, as flores,"Tem a relva, a trepadeira,"Tem a relva, a trepadeira,"Todas têm os seus amores,"Eu não tenho mãe nem filhos,"Nem irmão, nem lar, nem flores".
(In Os Escravos)
domingo, 23 de maio de 2010
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